A Casa do Rio Vermelho e meu vizinho Jorge Amado

mulher de costas olhando uma estante de livros na casa do rio vermelho

A Casa do Rio Vermelho e meu vizinho Jorge Amado

Na Salvador do início dos anos 90 as crianças já não andavam mais “pela rua” nos bairros de classe média. Ao contrário da geração anterior, tínhamos mais amigos na escola que na vizinhança. A brincadeira não se dava mais no bairro e não passávamos o fim de semana entre as casas dos nossos vizinhos. Seja pela violência urbana ou pela comodidade dos edifícios com área de lazer (talvez a mistura das duas coisas), o fato é que eu fui mais um exemplar da geração que poderia atravessar rua que nasceu de ponta a ponta sem saber o nome de nenhum morador.

Essa ignorância em relação aos vizinhos no meu caso tinha uma exceção: o Jorge Amado. Eu desde pequena sabia muito bem quem ele era e que vivia na casa 33 da mesma Rua Alagoinhas que eu morava, em Salvador. Naquela época o Rio Vermelho era um bairro de classe média apertada de grana, não chamava a atenção dos turistas nem tinha virado um reduto hipster-cult da capital baiana. Um local bem pouco provável para que um dos principais escritores brasileiros escolhesse morar.

baú com livros na casa do rio vermelho

Os livros do Jorge Amado foram traduzidos para 49 idiomas

Mas ele estava lá, naquela casa com portão de azulejos decorados e eu tinha a certeza infantil que um dia eu ainda ia encontrar ele na calçada, como se encontra qualquer vizinho. Saindo de casa, indo no supermercado, tirando o carro da garagem. As pessoas entram e saem de casa, não é mesmo? Eu estava tão perto, um dia os momentos iam se cruzar. Na verdade eu descobri, já maiorzinha, que ele pouco ficava naquela casa e passava a maioria do tempo no exterior. Mas quando criança eu acreditava que ele era um velhinho que passava a maioria dos dias em casa, como meu avô. 

Entrada e escada com azulejos na casa do rio vermelho

Número 33 da Rua Alagoinhas e seus azulejos

Uma vez a Zélia Gattai, esposa dele e também escritora, foi à minha escola de primário durante a Feira do Livro. Eu deveria ter uns oito anos. Comprei o livro dela “Anarquistas, Graças a Deus”, mesmo sabendo que era um livro para adultos mas com a certeza de que eu leria depois (coisa que óbvio, nunca aconteceu e eu não sei onde anda o exemplar). Fui para a fila de autógrafos com o coração batendo forte para dizer que eu passava na frente da casa dela todo dia e que era sua fã (apesar de não ter lido nada dela ainda, eu me sentia muito fã). Mas hora me eu só falei meu nome que ela escrevesse algo na contracapa e não disse mais nada.

Eu me mudei da da Rua Alagoinhas aos dez anos (minha mãe quis morar em um “bairro melhor” assim que teve oportunidade) e os 19 saí de Salvador. Quando meio por acaso vim de férias à capital baiana muuuito tempo depois – aos 33 anos – não tive dúvidas de qual seria o primeiro ponto turístico: a Casa do Rio Vermelho, nome da museu administrado pela Fundação Jorge Amado.

Então 25 anos depois eu entrei na casa do meu vizinho Jorge Amado – foi como se finalmente eu tivesse encontrado a porta aberta, como eu queria quando era criança. A estrutura foi mantida e os cômodos mostram, além dos objetos cotidianos e obras de arte, um acervo audiovisual de mais de 30 horas sobre o casal. O memorial oferece uma visita guiada gratuita, que dura 40 minutos e conta histórias curiosas como o do primeiro “morador” da casa: a estátua de ferro de Exu. Jorge Amado foi frequentador assíduo dos terreiros de candomblé e mandou colocar a imagem do orixá na entrada da casa antes mesmo que fosse morar lá, para dar proteção. Segundo a tradição, deve-se deixar cachaça como oferenda e a cota semanal de pinga do Exu é comprada com as moedinhas que os visitantes deixam junto à imagem. Ela o único item do memorial que não custa um centavo de manutenção: um exemplo de bebedor autossustentável.

Cada espaço foi complementado com um projeto audiovisual bem interessante, que com vídeos e audios, complementa a história de cada cômodo. No quarto de hóspedes, por exemplo, se fala dos  muitos visitantes ilustres que o casal recebeu: Pablo Neruda, Tom Jobim, Roman Polanski, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. “Se for de paz, pode entrar”, tem escrito na entrada da casa.

Detalhe do quarto de hóspedes: nessa caminha de alvenaria já dormiu muita gente f*da

quarto com cama de casal e cômoda, com imagens projetadas nas paredes na casa do rio vermelho

Quarto do casal com as projeções de vídeo nas paredes e na cama

Quando criança eu sempre esticava o pescoço tentando ver alguma coisa lá dentro mas nunca tive sucesso. A casa ficava no alto e a única coisa que dava para ver um pouquinho era o jardim. Cheio de árvores frutíferas, merece um passeio na visita. Lá também, perto do banquinho onde eles costumavam sentar, foram depositadas as cinzas do casal de escritores.

Bancos de alvenaria decorados com azulejos em um jardim, com uma árvore grande atrás, na casa do rio vermelho

Banquinhos onde eles gostavam de sentar

Depois da visita ao memorial, dê uma passadinha em Dinha para comer um dos melhores acarajés que você vai provar em Salvador – e também ver o pôr do sol na orla. São 650 metros de distância e durante o dia é seguro ir caminhando, mesmo sendo uma viajante sola.

Casa do Rio Vermelho

Rua Alagoinhas, 33, Salvador – Bahia

Horário de funcionamento: terça a domingo, das 10h às 17h

Ingressos: R$ 20. R$ 10 para estudantes e maiores de 60 anos. Às quartas a entrada é gratuita.

casadoriovermelho.com.br

Não confundir com a Fundação Casa de Jorge Amado, que fica no Pelourinho e é uma instituição cultural com atividades e pesquisas e documentação sobre Jorge Amado, Zélia Gattai e literatura em geral

A Casa do Rio Vermelho é um livro de memórias de Zélia Gattai publicado em 1999. Lá ela conta as memórias dos anos que o casal viveu na Rua Alagoinhas.

Jorge Amado é autor de Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e seus Dois Maridos, Teresa Batista Cansada de Guerra, Tieta do Agreste, entre muitos outros títulos. Para quem nunca leu nada do autor, eu recomendo A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, é curto, eu ri alto lendo e dá um gostinho do estilo de escrita do autor e da malandragem baiana de meados do século passado.

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1 Comment
  • Ruth Lima
    Posted at 10:45h, 19 julho Responder

    Que bom que você conseguiu conhecer…pena que sem o Jorge Amado!

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