Cinco anos como nômade digital – trabalho, dinheiro, erros e acertos

cinco anos como nômade digital

Cinco anos como nômade digital – trabalho, dinheiro, erros e acertos

Há cinco anos, em setembro de 2014, eu deixei meu emprego (como Relações Públicas de uma multinacional) e virei nômade digital: passei a não ter trabalho nem moradia fixas. Mais do que eu poder trabalhar de onde quiser e ter flexibilidade de horários (que é a parte boa), eu passei a ganhar menos, tive que lidar com vários meses sem ganhar nada (e quase quebrei duas vezes), tive que aprender muita coisa nova e várias vezes me meti em trabalhos que depois percebi que eram furadas.

Compartilho com vocês um relato bem sincero do que foram esses cinco anos como nômade digital.

Como eu comecei

Lá no início de 2014 eu eu tinha um emprego, o salário caía na minha conta todos os meses, trabalhava de 9h às 18h (e quase sempre fazia hora extra), vivia estressada, pegava metrô lotado todos os dias e viajava só nas férias e feriados. Nessa época eu sabia que não queria mais aquele estilo de vida mas não sabia muito bem O QUE eu queria nem COMO fazer isso acontecer.

E além disso, eu tinha medo de me demitir e tentar uma coisa nova. Eu vou trabalhar com que? E os boletos? E se eu não tiver freelas suficientes para pagar as contas? Ficava arranjando mil desculpas para pensar nisso no mês que vem, no próximo ano, depois das férias… E cada dia odiava mais estar praticamente o dia inteiro em um trabalho estressante e que pra mim não fazia sentido. Isso me deixava muuuito angustiada, eu passei a ter crises de insônia, a tomar remédio para ansiedade e para dormir. Um caos.

Mesmo sem ter muita clareza do que eu queria, tomei a decisão de fazer uma poupança pra quando eu finalmente tivesse coragem de me demitir. Pois qualquer que fosse o meu plano eu precisaria de uma reservinha de dinheiro. E coloquei a meta de economizar 30% do meu salário. Aí em setembro de 2014 eu não tomei coragem de me demitir… mas fui demitida. Lógico que me pegou desprevenida e eu fiquei super ansiosa porque ainda não era o “momento ideal” para eu fazer uma mudança tao importante na minha vida. Se por um lado eu tive um mini-surto porque não me sentia preparada, por outro eu me obriguei a não procurar outro emprego e tentar essa tal vida de nômade digital.

Mudando de vida e de profissão: deu tudo errado

No início eu tentei ganhar dinheiro com o que eu gostava de fazer: escrever. Decidi ser repórter freelancer e ganhar a vida vendendo matérias. Spoiler: deu tudo muito errado nessa época. Como eu tinha trabalhado quase sempre com comunicação corporativa e não como repórter, não tinha muitos contatos nos jornais e revistas nem nem um bom portfólio. Além disso, 2014 foi um ano péssimo para a economia e a imprensa estava sem grana para contratar freelancers. Eu passava o dia mandando um montão de propostas e quase nada dava certo. Foi super frustrante.

Primeiro trabalho remoto

No início de 2015 eu consegui meu primeiro cliente fixo: eu produzia conteúdo para o blog de uma agência de viagens. Eles me pagavam um valor mensal e eu poderia trabalhar de casa ou de onde eu estivesse. Pulei de alegria, finalmente as coisas estavam dando certo. Não tive dúvidas e logo que entrou o pagamento eu programei a minha primeira viagem como nômade digital: passei 42 dias na Bolívia turistando e trabalhando remoto. Foi ótimo mas durou só seis meses. Logo veio a alta do dólar, a agência quase faliu e cancelou o meu contrato.

Mulher em frente a um lago azul - cinco anos como nomade digital

Meu primeiro mochilão como nômade digital: Bolívia

Diversificando minhas fontes de renda na marra

No início de 2016 eu já tinha entendido que eu não ia conseguir pagar minhas contas só como jornalista freelancer, mas ainda não sabia direito que outros trabalhos eu poderia fazer. Nesse mesmo ano eu lancei o blog do Saia Pelo Mundo, que inicialmente era mais um hobby que uma fonte de renda. Por força das circunstâncias (eu não tinha dinheiro para pagar alguém que fizesse para mim) eu tive que aprender como montar um site em WordPress. Aí a minha então sogra pediu para eu fazer o site da empresa dela e eu percebi que se realmente eu me dedicasse a aprender sobre isso, poderia trabalhar também montando e administrando sites.

Claro que no início foi um deus-nos-acuda. Eu não sabia quanto cobrar, negociar valores, dimensionar o tamanho do trabalho (e acabei cobrando muito pouco por sites que me deram muuuuito trabalho). Eu me estressei um monte e tive que aprender muito rápido várias coisas diferentes (SEO, SEM, Adwords, WordPress, Analytics…) mas passei a ter um volume maior de clientes, o que aliviou as contas.

Mulher rindo em frente a parede com grafitti - cinco anos como nômade digital

Rindo de nervoso dos boletos que eu não sabia como pagar

8 meses no escritório: um passo atrás e dois pra frente

Nesses cinco anos eu passei por muitos momentos de quase colapso financeiro. Em 2016 foi o pior deles. Nessa época eu já trabalhava produzindo conteúdo, fazendo sites e administrando redes sociais, mas não ganhava o suficiente para me manter. No início do ano as minhas economias estavam acabando e eu já tinha decidido vender as poucas coisas que eu ainda tinha em São Paulo e voltar para a casa da minha mãe, em Fortaleza.

Eu me senti a pessoa mais derrotada do mundo nessa época. Eu achei que eu não era boa o suficiente para me manter trabalhando como nômade digital. Foi aí que meio por acaso apareceu uma proposta de emprego e eu aceitei. Emprego fixo, no escritório, com horário para entrar e sair. Teve um pouco o gostinho de derrota, eu não consegui nem comemorar que eu tinha sido aprovada na entrevista.

Mesmo eu me sentindo uma merda (nessa época inclusive eu comecei a tomar remédios para depressão) por não ter conseguido me manter como nômade digital, eu decidi encarar aquilo ali como temporário. Eu iria juntar o máximo de dinheiro possível para tentar novamente, agora com mais experiencia. Nesse ponto eu decidi reduzir ainda mais meus gastos fixos: deixei de ter carro e aluguei o quartinho dos fundos (que cabia praticamente só a cama) na casa de um amigo. Com isso, eu consegui economizar metade do salário salário que eu ganhava no emprego. Eu saí do trabalho em janeiro de 2017, depois de oito meses e comecei o ano com um pouco de dinheiro no bolso e a certeza que eu queria trabalhar de maneira independente e poder viajar o mundo. Durante o ano eu fiz alguns freelas e o fantasma da derrota parecia ter ficado longe. Com as contas equilibradas, eu comecei a organizar a segunda viagem longa como nômade digital: passar três meses na Europa no início de 2018.

Finalmente nômade digital full time

Até 2017, eu passava mais ou menos seis meses por ano viajando e seis meses em São Paulo. Em 2018 eu resolvi passar o ano inteiro viajando: primeiro foram três meses na Europa, depois fui para o Chile,  passei pela Argentina, Peru e África do Sul.

Novamente, não foi fácil. O custo de vida na Europa Ocidental, Chile e África do Sul não são baixos e no meio da viagem eu passei por um período de “vacas magras”, quando uns clientes foram embora ao mesmo tempo. Nessa época eu já tinha profissionalizado o blog e o Instagram, que já rendiam algum (pouco) dinheiro, já tinha aprendido a administrar melhor a vida de freelancer e principalmente a agarrar o trabalho que aparecesse se eu tivesse precisando de grana.

cinco anos como nômade digital

Fazendo safári na África do Sul

Em janeiro de 2018 eu vendi geladinho de vodca nos bloquinhos de do pré-carnaval de Fortaleza – e com esse “freela” paguei minha passagem, hospedagem, todos os custos do carnaval de Recife e ainda juntei um dinheirinho. Quando teve o período das “vacas magras” – eu estava no Chile – eu não pensei duas vezes e fui fazer brigadeiro para vender. Não tive medo de colocar a mão na massa e isso ajudou a pagar as contas quando eu estava com poucos clientes. Em dezembro os freelas voltaram a aparecer e por enquanto está tudo bem 😊

E hoje?

Se você leu até aqui achando que ia ter um final de conto de fadas, que eu ia contar que hoje eu trabalho 100% do tempo com coisas muito legais e vivo uma vida chique ao redor do mundo, eu sinto muito te decepcionar.

Hoje meus ganhos vem basicamente da produção de conteúdo para empresas de turismo e matérias de viagem para jornais e revistas. Esporadicamente eu faço trabalhos de programação de sites, assessoria de comunicação e mídias sociais, além produção de conteúdo para universidades. O blog e o Instagram me rendem algum pouco dinheiro por meio de links de afiliados, mas por enquanto é muito pouco. Pode ser que futuramente as coisas apertem de novo, eu tenha que passar uma temporada no escritório, vendendo brigadeiro ou voltar pra casa da minha mãe. Eu luto pra isso nao acontecer, mas se rolar, eu vou encarar e continuar indo atras do meu sonho.

Cinco anos depois, eu vejo que eu consegui alcançar meu objetivo que era trabalhar de maneira independente enquanto viajo o mundo. Mas nem tudo são flores (como vocês bem viram no texto). Existe cliente chato, eu fico estressada com trabalho de vez em quando e ganho menos do que quando tinha emprego fixo. Por outro lado eu faço meus horários, posso viajar por meses seguidos, visitar minha família e amigos no Nordeste quando eu quiser por quanto tempo quiser. Hoje eu sinto que o meu trabalho (que é escrever, fotografar, lidar com redes sociais e contar minhas histórias de viagem) faz muito sentido pra mim e eu sou muito feliz por poder trabalhar com o que eu gosto.

Eu passo perrengue, mas tá valendo a pena.

 

 

 

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