Dicas para viajar sozinha pela Bolívia

Dicas para viajar sozinha pela Bolívia

É seguro viajar sozinha pela Bolívia? Ou só entre mulheres? A Saia rodou bastante pelo país – foram nove cidades e 42 dias – e em relação à segurança física, a gente não corre mais risco do que no Brasil. Em relação aos perrengues machistas, se por um lado os bolivianos são mais introvertidos do que os brasileiros, por outro lado é raro ver bolivianas passeando sozinhas, saindo à noite, bebendo ou usando roupas curtas. Vamos por partes:

Transporte público, intermunicipal e táxis

"Quien te quiere quien te ama Joselito se llama". Mix de taxi e Loucuras de Amor.

“Quien te quiere quien te ama Joselito se llama”. Mix de taxi e Loucuras de Amor.

É mais fácil você pegar tétano no transporte público do que levar uma encoxada. Nas cidades rodam exclusivamente micro-ônibus (verdadeiras peças de museus), que não dá pra ir em pé. Os bolivianos e bolivianas ficam menos à vontade em ter contato físico com desconhecidos do que nós brasileiros. Então aquela encostada “sem querer” em aglomerações é raro. Eu não vi – nem senti – nenhuma. E olha que eu rodei um monte de transporte público.

O povo da Bolívia é via de regra meio desconfiados com estrangeiros. Nos transportes públicos eles preferem sentar do lado de um conterrâneo do que de um estrangeiro, mesmo que seja mulher. Em geral os passageiros homens não puxam conversa com você. Nos ônibus de longa distância, acontece o mesmo.

Para os motoristas de ônibus o raciocínio é o mesmo. Eles são retraídos e ainda por cima têm aquele mau-humor inerente à profissão. É mais fácil que ele responda com monossílabos a uma pergunta sua do que aproveite que você está pedindo informações pra te cantar.

Quanto aos taxistas, eu não escutei nenhuma mulher ter passado por um momento delicado. Eu andei bastante de taxi (é muito barato) e não sofri assédio nem comentário “engraçadinho”. Em geral eles são calados e os poucos que puxaram conversa não foram invasivos. O padrão lá é que os passageiros sentem atrás, então o taxista pode achar que você está dando algum tipo de liberdade por sentar na frente (você senta onde quiser e o o culpado do assédio é o assediador, só tenha em vista que ele pode pensar isso).

Lá é muito comum que os taxistas e motoristas de ônibus levem mulher, filhos e às vezes até bichos de estimação no veículo. Isso também diminui a probabilidade de cantadas e olhares.

Tirando foto escondida do impagável periquito do motorista

Tirando foto escondida do impagável periquito do motorista

Roupas

O corpo é nosso e a gente veste o que quiser. Mas tenha em mente que as bolivianas se cobrem bastante, então corpo à mostra atrai olhares, como usar shorts, saias, leggins e decotes A maioria das cidades turísticas do país fica no altiplano boliviano (La Paz, Copacabana, Sucre, Potosi e Uyuni, entre outras) e devido à altitude mesmo no verão faz frio. Ou seja, via de regra a gente anda bem coberta.

Nas cidades que tem influência da etnia aymara (as principais são La Paz, Cochabamba e Oruro) pernas à mostra são bastante chamativas. A panturrilha é considerada a parte mais sexy do corpo da mulher e uma roupa que não as cubra faz o mesmo efeito que um biquine fio-dental ou um decote profundo aqui no Brasil.

Cantadas de rua e olhares

Dificilmente você vai ouvir as barbaridades que a gente ouve aqui no Brasil, mas se você anda sozinha por lá “psiu”, “bonita” e correlatos são meio frequentes. Detalhe tragicômico: os homens ficam mandando beijinho na rua pra você. Beijinho, genthy? É tão filme da Sessão da Tarde que você esquece por um segundo que está sendo assediada e quer rir. Mas aí esse segundo passa e quer novamente mandar o beijoqueiro pra pqp.

Apesar de o turismo estar bem difundido na Bolívia, estrangeiros e estrangeiras ainda chamam atenção. Mesmo que você não seja uma loura alemã, se estiver em um lugar pouco frequentado por turistas as pessoas vão ficar olhando pra você. Sempre que eu ia comer (sozinha) em algum restaurante nada turístico o pessoal ficava “espiando” com cara de surpreso. Nesse caso, nem todo olhar é assédio. Às vezes é porque o mix “estrangeiro + mulher + sozinha” é muita informação nova e eles ficam curiosos.

À parte disso, rola sim olhares assediadores. É chato (e inaceitável em qualquer nível), mas a olhada é menos invasiva do que aqui no Brasil. Foi menos intensa a sensação de ser um pedaço de carne. Vale pontuar que essa discrição deles é porque os bolivianos são tímidos e não porque tenham respeito às mulheres.

Entre os collas (bolivianos descendentes de indígenas) as mulheres cheinhas são consideradas mais bonitas e consequentemente vítimas de mais cantadas.

Mulher sozinha e na ausência de um homem

Todos esses perrengues acima valem só para as mulheres na ausência de um homem. Como em todo país machista que se preze, os homens “respeitam” muito o fato de a mulher estar acompanhada e não vão mexer com você.

[pausa pra jogar uma bomba no patriarcado]

As bolivianas em geral não saem muito à noite (muito menos sozinhas), mas durante o dia elas circulam por todos os lugares. Então ninguém vai te seguir ou qualquer coisa do gênero porque você é uma “mulher desacompanhada” à luz do dia. À noite eu não recomendaria andar só, independente de ser homem ou mulher (exceto em lugares muito movimentados). Táxi é muito barato lá e pode ser uma opção para não prejudicar taaanto nossa liberdade de ir e vir.

Nesse post eu listei alguns cuidados com segurança na Bolívia. Pras meninas, vale ficar mais atenta às recomendações, porque o ‘nosso querido machismo’ faz as mulheres enfrentarem mais enrolações/assaltos/etc do que um homem.

Dicas extras pra rodar sua saia na Bolívia

Potosi é a cidade que rola mais assédio. Tem muito homem sozinho (e solitário), pois deixam a família em outra cidade e vão ganhar a vida com mineração. Ao contrário do resto do país, em que se bebe muito pouco, lá o alcoolismo é um problema. Foi o único lugar que eu ouvi uma cantada grosseira. De dia é tranquilo circular pela cidade, inclusive sozinha. De noite eu acho meio complicado ir sozinha ou em um grupo de duas ou três mulheres.

Em cidades super-turísticas como Uyuni o padrão de comportamento é europeu. A mulherada anda sozinha e gringas não são bichos exóticos (mesmo porque são maioria lá). Daria pra roupa curta sem ser incomodada mas o frio é tanto que você não vai querer.

Dá sim para viajar sozinha pela Bolívia. Em casal de mulheres ou pequeno grupo feminino também. Eu passei 42 dias (incríveis) lá e visitei tudo que queria, sempre sozinha e sem depender de pacote ou guia. Não precisa ser uma viajante super experiente nem ficar se cobrindo de mil cuidados. Um pouco de planejamento e precauções simples dão conta do recado.

É isso. No mais, liberte-se e saia pela Bolívia! 😉

2 Comments
  • Sarita
    Posted at 20:59h, 29 dezembro Responder

    Mila, vc fez a ruta del Chê? Se sim, foi tranquilo sendo mulher e sozinha?

    • Mila Pereira
      Posted at 19:09h, 05 fevereiro Responder

      Fiz a ruta del Che. Foi beem tranquilo em termos de segurança. As cidades pequenas na Bolívia têm um índice muito baixo de criminalidade e embora o pessoal local fique olhando para você (uma pessoa não indígena, turista e ainda mulher viajando sozinha – praticamente um ET) é só curiosidade, ninguém tenta te assaltar . Na verdade o que pegou mais por lá é a falta de infraestrutura de turismo: nao tem transporte entre uma localidade e outra, os tours são caríssimos (pois geralmente não tem outros turistas pra compartilhar o passeio), não tem sinalizacão e é dificil conseguir informacão. Mas pra mim valeu a pena, foi um destino incrível que eu super guardo no coracão.

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